Sentado na varanda de casa, como de costume, comecei a observar a cidade. As ruas de São Paulo sempre tiveram um charme para mim, mas com o vento no meu rosto e a luz de um por-do-sol, esse charme se acentuava ainda mais. É meu aniversário. Faço 67 anos e, desta vez, preferi passa-lo sozinho. Todo homem, numa certa idade, começa a refletir sobre o que ele é e o que ele foi. Pelo menos é o que todos deveriam fazer. Talvez meu dia seja hoje. Essa tarde, desse verão em especial, me trouxe uma inspiração única.
Foi inevitável: meu passado à tona. Lembrei-me dos meus 16 anos, afinal, quem se esquece dos 16? A maioria se lembra dos amigos, das festas, do primeiro beijo, da escola, do primeiro porre. Comigo foi diferente: me lembro do meu primeiro choque de realidade. Ser pobre já era difícil. Ser pobre e negro parecia impossível. Mas nem sempre foi assim.
Eu tinha casa, família, e mesmo que não houvesse laços de sangue, tinha o amor de meus pais. Frequentei boas escolas, morei em bairros nobres, a minha realidade era, aparentemente, o sonho de muitos. Mas as aparências enganam, começando pelo meu irmão que não herdou nem a bondade e nem o coração de nossos pais. Não conversava comigo, não olhava nos meus olhos. Nunca me tratou de igual para igual. O fato de eu ser adotado era um problema para ele, e fazia questão de deixar isso explícito sempre. Perto dele me sentia anormal. Mas quem me dera me sentir assim só com ele. O filme se repetia na escola, no bairro e em qualquer lugar que eu fosse. Era como se a cor da minha pele fosse a condição para que me tratassem mal.
Duas coisas me mantinham em casa: a porta trancada e o amor e dedicação de meus pais. Mas quando nem dentro de casa eu conseguia me sentir alguém, o amor de mais pais pareceu insuficiente. A porta já não era mais obstáculo. Saí. Não sei exatamente o porquê. Em casa a situação já estava insuportável, então pensei que fora dela seria diferente. Não foi.
Na rua foram dois anos: dos 16 aos 18. Vi, ouvi e vivi histórias de todo o tipo. Daria pra escrever um livro, mas preferi guardar na memória. Lembro-me de uma vez que estava pedindo comida na rua, não era a primeira vez mas, especificamente nesse dia, aconteceu algo diferente. Um homem parou e me disse: "Você não tem vergonha de estar nessa situação? Eu passo aqui todos os dias e sempre há um de vocês com histórias diferentes, tentando nos comover. Vocês só servem para atrapalhar a nossa passagem. Sempre haverá pessoas morrendo de fome. Aceitem a realidade. Isso é natural!." Suas palavras doeram, mas nem tanto quanto a indiferença em seu olhar. Naquele momento me perguntei: "O que é ser humano?". Até hoje me pergunto. Talvez eu não saiba exatamente o que é SER, mas tenho certeza de que sei o que é NÃO SER.
Estar no poder se preocupando mais com o seu salário no final do mês do que o bem comum da população que o elegeu não é ser humano. Olhar para moradores de rua com indiferença e sequer se importar, acreditando que eles são resultado de problemas sociais que não os envolvem, não é ser humano. Confundir o status de comum com o de natural não é ser humano. Em um mundo onde há comida suficiente para todos, passar fome não é natural, é comum. Matar pessoas, sendo elas 10 ou 10.000, por dinheiro, território, crenças cegas ou muito menos não é natural, é comum. Ver adolescentes perdendo seus valores e se perdendo em drogas cada vez mais cedo não é natural, é comum. E, principalmente, aceitar todas essas coisas e conviver todos os dias com elas como se fossem da nossa natureza, definitivamente não é ser humano. E para quem, até então, estava pensando que meu choque de realidade tinha sido as ruas, o preconceito e passar fome, se enganou porque, pior que isso, era a reação das pessoas, ou melhor, a FALTA DE REAÇÃO dos que me viam e viam os outros ao meu redor naquela situação e nos encarava como se tudo fosse normal, natural. E digo a vocês: Isso acontece há muito tempo e no mundo inteiro.
Aos 18 anos resolvi mudar de vida. Foi fácil? Nem um pouco. Valeu a pena? Muito! Naquela época conheci uma mulher chamada Luiza. Ela me mostrou que podia ser diferente. Fazia trabalho voluntário cuidando de crianças carentes. Dava comida, abrigo, exemplos. Comecei a ajudá-la e não parei mais. Lá, houve uma noite em que li o trecho de um livro que dizia que os melhores políticos eram os políticos por vocação; soube naquele momento que eu era um deles. Chegar lá foi muito difícil, mas não convém contar-lhes agora. Aos 25 anos me vi na câmara dos deputados. Nem preciso falar do preconceito que sofri, mas para minha surpresa tive ajuda de alguém influente, o mesmo que estava na 1ª fileira, no meu 1º discurso: Meu pai. E ao lado dele, emocionada: Minha mãe!
Durante minha trajetória política fiz o que devia fazer, o que todos deveriam fazer, ou pelo menos fariam se fossem apaixonados como eu. Não voltei para casa, já não era mais meu lugar. Mas dessa vez tive o apoio dos meus mais, que me abraçaram sem fazer perguntas e me deixaram tomar minhas próprias decisões. A sensação foi única. Me senti como um pássaro que descobria seu próprio caminho ao sair da gaiola.
Dei muita dor de cabeça aos outros políticos. Pobres políticos. Denunciava corrupções, propunha leis que realmente fariam diferença. Mas o sistema é foda. Infelizmente, na câmara precisava dos votos dos corruptos, e esses eu não tinha. Já dá pra imaginar que eu não durei muito. Mas tudo bem, há paixões que não duram uma vida e mesmo assim são inesquecíveis. Valem a pena!
Já escureceu. As tardes passam voando. Assim como o tempo. Assim como a vida. Assim como deveriam passar todos os pássaros na minha varanda. Hoje, olho orgulhoso para o meu passado. Se pudesse escolher, faria tudo da mesma forma. Ensinei muito, aprendi ainda mais. Fui político de verdade, olhei nos olhos, discordei do arbitrário, errei, acertei, fui intenso, fui humano. E fiz minha parte para tentar resgatar a humanidade de uma sociedade desumanizada.
Não é necessário subir num palanque, ter milhares de pessoas à sua frente para que você seja ouvido. Você já faz política o tempo todo, não é uma escolha sua, mas você pode escolher como fazê-la. Então faça a escolha certa, mesmo que sem ganhar nada por isso. Dizem que as vezes, quando se perde é quando se ganha.
Já festejei muito. Hoje, abro mão da festa mas nunca do bolo, que por sinal já deve estar queimando no forno. Por isso, deixo agora aqui o meu último recado: " Não digam nunca: isso é natural. Para que nada passe a ser imutável!" A memória não aceita divórcio, as lembranças vão te acompanhar por toda a vida... E então do que você vai se lembrar?
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